segunda-feira, 26 de março de 2007

Janaína

Por Priscila Letieres Era negra de pernas maravilhosas; o colorido dos casarões contrastava com sua pele. Descia as ladeiras de paralelepípedo do Pelourinho, armada do meneio de seus quadris e com um sorriso ingênuo, amarelo, que só ela, Janaína, poderia exibir. Vinha arrancando murmúrios de qualquer ser andante, seja despertando inveja, desejo ou lamento. Tinha ela todos os atributos que uma mulher deveria ter no auge dos seus 20 anos. Trabalhava muito, não estudava; acordava cedo para preparar o café de mais alguns. E aquela sexta-feira não começara diferente: rádio ligado, café, ladeiras, barraca de ambulante da mãe no centro. Mas, a noite traria um acontecimento não ordinário, até então, secretamente, desejado por Janaína. O centro-histórico estava cheio; comecinho de noite... Enquanto os irmãos perambulavam pelos becos barulhentos e a mãe bebia, Janaína era embebida na música e deixava que seus sonhos se soltassem dos cabelos rigorosamente presos; sonhava com o inesperado. A festa continuava. O céu já estava escuro e com poucas estrelas. Os sotaques e cores misturados culminavam em uma amálgama de imoralidades que parecia suja demais para ela. Dentre os olhares que a cercavam, cruzou com um olhar claro e receptivo. Acompanhava aqueles olhos azuis, um cabelo loiro meio engordurado, pele amarela com uma cobertura avermelhada pelo sol. Ele era alemão. Os dois se olhavam com um misterioso interesse. Janaína esgueirava, mas terminou por ceder àquela investida desigual. O homem levantou-se e aproximou-se da jovem – cujos batimentos cardíacos aumentaram de velocidade. Dançaram algumas palavrinhas. Em meio às perguntas emboladas, as respostas da garota, sempre monossilábicas, se perdiam. Entreteu-se, bebeu algo oferecido por mãos desconhecidas e subiu as escadas escuras de um pequeno hotel no centro. Um quarto muito simplório: cama, armário, malas e três máquinas fotográficas sobre um criado-mudo. Ela é devorada. Não se lembra ao certo. Foi rápido. Acorda sozinha na cama e os lençóis, antes brancos, levam um toque avermelhado. Ele está agora parado, em pé, próximo à janela; segurava um cigarro em uma das mãos e uma máquina fotográfica na outra. Atordoada, ela tentou ir embora, correu, mas não foi tão rápida quanto o acidente. Ele a agarrou pelas tranças soltas que balançavam como chicotes - embora não servissem para sua própria proteção. Ela resistiu e a máquina, atingida por um dos golpes de suplício, foi ao chão. Ele a agride. Ela corre. Ele atira. O chão do hotel cobre-se de rubro. O homem, incólume, recolhe seus pertences e volta a pertencer à noite, rumo a um outro hotel para esperar por uma outra sexta-feira. As ladeiras de paralelepípedo, ainda que ensanguentadas, continuam na mesma vibração de festa, risadas, de sujeira, de acidentes, aproveitando os desfechos de uma nova festa, numa outra sexta feira, a espera de mais uma Janaína.