quarta-feira, 2 de maio de 2007

O par desacompanhado

Por Priscila Letieres

Já passava das 3 da madrugada, e, até aquela hora, nenhum sinal dele. À meia-noite, Helena, completara longos 46 anos de solidão e comemorou abrindo uma garrafa de wísque que guardou para quando a ocasião finalmente chegasse. Encheu um copo com a bebida e colocou um pouco de gelo muito delicadamente.

O copo de vidro, frio, ainda pairava em uma de suas mãos bem feitas, quando seu coração acelerou de forma intensa; aflito pela demora de Roberto.

O dedo ainda rodava a única pedra de gelo que restara - era só o que Helena conseguia mexer do seu corpo; o resto era inerte. Os olhos imodicamente abertos e fixos no nada, acusavam o quão perdida a mulher estava. Desajeitadamente assentada no velho sofá da sala, parecia estar só demais; não como de costume, mas sozinha, sem Eduardo.

Sua infância veio como um curta-metragem em seus globos oculares: seu cachorro que ganhara aos 5 anos, sua primeira bicicleta, seu primeiro e único emprego, muitos sonhos, nenhum deles realizado. A princípio, toda aquela nostálgica felicidade lhe chegou como tristeza, alguns segundos depois, aquela felicidade se transmutou em uma afronta.

Irrefletidamente lançou o copo contra a parede.

Todo aquele barulho a ensurdeceu. Com as mãos no ouvido, agachou-se no chão e pôs-se a prantear de maneira descontrolada.

Tornou a lembrar de Israel e seus carinhos. Ele a alisava de modo suave, inteiramente compenetrado no rosto redondo de Helena, contemplava-a como que a uma deusa. Sentia-se leve. Viajava enquanto aquele ser carinhoso prostrado ao teu lado a amava intensamente.

Aquelas lembranças fizeram com que ela se acalmasse. Aconchegou-se melhor no tapete entre o sofá e a mesa de centro. Fechou os olhos. Na sua cabeça explodia o mundo; entre as mãos apertava a cabeça e, colado aos cotovelos, os joelhos.

Tudo estava estranhamente rápido. Ela cansava-se cada vez mais. Um furacão tomou seus pensamentos, tudo aquilo que era importante para a mulher se misturou em um turbilhão que girava intensamente. A amálgama expandiu-se por todos os seus órgãos, músculos, poros.

Ela já tinha esperado muito, e 46 anos não foram suficientes para que um Roberto ou um Eduardo, um Israel, um príncipe qualquer, chegasse. Viu então que suas lembranças eram tão reais quanto à névoa que a cercava e que, como de encanto, se desvairiu.

Ninguém jamais a amou.

Era tarde e Helena precisava dormir. Todas as suas forças extenuaram-se. Era hora de dormir, ou acordar... para sempre.