quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Saia, (de) menino

um barco azul
tá solto no rio
e lá vem o vento, a chuva, o vento
soprando forte
de longe pra mais longe ainda

Corre, menino!
vai buscar o sonho de outros
vai viver a vida de todos
vá ser diferente
seguindo o caminho, já desgastado, que está na tua frente

O sol estará de volta ao céu quando voltar
pega a pipa, menino!
vá se soltar!

deixa o vestido rodar no azul enquanto pode
Não se segure na saia; saia menino
mais tarde vem o vento, e a chuva, e o vento manso....

domingo, 24 de agosto de 2008

leia até o final, se for ler...

O CASAL PERFEITO



-Eu quero ir de Hitchcock!
-Ah, não inventa, Letícia! Vamos de Romeu e Julieta e acabou.
-Mas nós não somos um casal perfeito.
-Justamente, nem eles eram, tá decidido?
-Eram SIM!
-Eles não morreram?Não tem um final triste?Então não eram perfeitos.
-Detesto ir de normal, Peu.
-Para quê todo mundo lhe olhando?

Letícia tinha casado com Pedro há 3 meses em uma cidade minúscula do interior da Bahia. Ele, cineasta, foi a trabalho carregando nas costas a noivinha enfermeira que tanto queria aproveitar as férias.

Mas a paisagem era muito bonita, fazia muito calor, a cama era muito pequena e o amor era tanto que o melhor mesmo era casar logo.

Chegando a Salvador, algumas semanas depois, já dividiam o apartamento de Pedro, o carro e a paciência entre os dois. Apesar disso, estava tudo bem.

Até que chegou o aniversário a fantasia de 1 ano do sobrinho de Letícia.

-Ah, Grandão, vamos de Ruth e Raquel, vai?
-Ô peixinha, dá para eu ir de surfista, não?! Pego até sua prancha velha e tudo mais se você quiser.

Porque do "peixinha"? Foi um dia lindo de praia quando os dois se encontraram pela primeira vez nessa vida.

CENA1: A enfermeira, já em água antes mesmo de entrar no mar, dizendo as amigas como era maravilhosa no nado crau.
CENA2: A enfermeira, em água, se afogando no mar.
CENA3: Depois do resgate de Pedro, o suspiro de alivio de Letícia e seqüente risada de Peu, a surpresa:

-Tava brincando demais no mar, hein peixinha?
-O que você quer de mim, Oh homem g r a n d e ! - Deliciou-se Letícia ao acordar de vez, agora.

E a história dos dois se fez destino.

Um chopp pro Peu, 5 águas de côco pra Letícia, 4 anos de namoro, 2 dias de noivado e recém feitos 3 meses de casamento. Eram todos os números que o casal usava durante a vida, ambos detestavam contar número.

Mas existia um numeral especial.

Dizem que o terceiro mês de casamento é delicado. Se não dizem, eu sempre ouvi alguém dizer que ouviu. A festa do pequeno Rafael, que até então não tinha muita coisa haver com a história, tinha que ser justo neste bendito mês?

Mas o menino já nasceu, fazer o que?

Continuando...

-Não entendo, se você quer tanto fazer minha vontade, Pedro, poderia fazer o favor de repensar na idéia de Chave e Fechadura?

-Sempre lhe achei espetaculosa demais, Peixinha, e sabia que um dia teria que pagar meus pecados. – Desistiu Pedro.

-Como é que é Sr. Pedro? Não entendi... Explique melhor; roteirize; coloque a legenda, vá!

Sabe quando começa uma briga? Quando alguém diz que entendeu tudo, mas repete as palavras em uma ordem completamente diferente da dita na versão original; ou quando alguém diz que não entendeu nada e segura em uma palavra:

-O que você quis dizer com “espetaculosa”, Pedro?

Isso remete a um dia do casal no parque. Letícia – mulher que adora segurar palavras – assustava os pombos ameaçando jogar uma bomba de efeito moral que iria fazê-los chorar para sempre de medo, enquanto Pedro assistia a cena do banco, comendo pipoca. Cansada de encarar os bichos alados sem obter sucesso na tentativa de afastá-los, veio fadigada sentar-se junto ao até então namorado:

-Porque tem pombo no mundo, cara? Eles não leram a placa com políticas de boa convivência que dizia: “sejam cordiais, não caguem em cabeças alheias”?
- Deixa isso pra lá, pequena, você é radical demais, deixa a natureza viver em paz.
-Como assim, Pedro? Ta dizendo que eu não gosto de natureza, é?Entendi tudo, foi por isso que você não me deixou ir para a filmagem lá na Chapada, não foi?
-Oxente, Letícia, ta viajando, é?
-Não viajei não, fiz plantão no Hospital, isso sim. Mas o que você quis dizer com “radical”, Sr. Pedro? Posso saber?

O casal costumava sair sempre. Andavam juntos para todo canto: vernissage do amigo artista plástico de Peu; comemoração do dia do médico – regada a bebidas com componentes etílicos – na casa de Renata da obstetrícia; parque aos domingos; sexta do chopp com a galera ‘das antigas’. Era fácil brigar, mais fácil ainda era fazer as pazes:

-Espetaculosa é coisa boa, peixinha, eu juro. Vem aqui dar um beijo.
-Se é boa porque tem “pagar os pecados” na mesma frase que ela?
-Um beijo, vá!- Pedro interrompeu a mulher tascando um beijo daqueles.

Mas não daquela vez. A briga estava rendendo uma conversa torta. Letícia afastou Pedro de perto do seu peito com as duas mãos. Aquilo tinha mexido com ela a ponto dela falar devagar e pausadamente com o marido.

-Pôxa, Peu. Você está dizendo que eu sou efusiva e que você paga seus pecados indo a uma festa de um sobrinho meu fantasiado? Eu nem acredito.
-Letícia, pára com isso, eu só falei por falar, não quis dizer nada não. Você sempre entende, quer entender errado agora porque, hein?
-Por isso você queria ir de Romeu, morrer logo e ter um final triste pra não ser um casal perfeito, não é?
-Tá bom, parou a brincadeira, peixinha, o Marcelo da editora sempre falou que ia fazer essa piadinha comigo um dia, mas você participar, peixinha, é demais. Isso é sacanagem. Vá, pare com isso.

Pedro já estava sorrindo quando fechou o tempo para Letícia:

-Não me ligue hoje não, Pedro. Vou estar na casa da minha mãe pensando na “brincadeirinha de sacanagem” que é a nossa relação.

Benditas sejam as casas de mães, nem tão benditos são os conselhos que se ouve das irmãs, tias, babás dos sobrinhos, cozinheiras e amigas das amigas que lhe dão total apoio – e também aconselham de maneira duvidosa – na casa de sua mãe.

A situação estava feia. Pedro ficou tão chocado com a reação esdrúxula de Letícia que entristeceu, ficou murcho e pensativo.

Letícia queria uma análise completa de sua relação, queria estatísticas, conceitos bem exemplificados, tudo autenticado em cartório – mesmo não gostando de nada disso.

Ela queria ir fantasiada de enfermeira sexy só de pirraça; sabia que Pedro detestava piadinhas sobre enfermeira sexy.

- Espetaculosa é demais pra minha cabeça, cara. Como ele pôde?

-E que drama infundado, que absurdo. Colocar em cheque a relação por uma palavra efêmera. – Dizia Pedro, tomando uma cerveja com o amigo Marcão, que também não era bom com conselhos – Como ela pôde?

Briga boba é traiçoeira. Se mal resolvida, pode virar o fim do mundo, do relacionamento, da vida a dois; se esquecida fácil demais, algum dia, em alguma outra situação, outro século, vai ser lembrada.

Na manhã seguinte, Letícia já se arrumava pra sair quando Pedro chegou junto:

- Quer pensar ainda?
-Quero.

Passar dois dias sem se falar foi um tremendo esforço. Gigante esforço, porque se falar era o que mais queriam. Foi difícil segurar a piadinha matinal que Letícia sempre fazia do cabelo bagunçado e da cara de caneca de Pedro. Pedro não conseguiu dormir rápido sem fazer o cafuné na cabeça da mulher, que ninava mais ele do que ela.

Por falar em palavras, as conversas eram o forte do casal. Ambos dominavam a arte da palavra e em época de namoro já tinham admitido um ao outro:

-Acho que é por isso que virei cineasta, peixinha. Sempre gostei de contar as coisas. Contar tudo sem número, apenas narrar, saborear as histórias. –Disse à namorada enquanto caminhavam até a praia da Barra no sábado livre da enfermeira.

-Eu adoro lhe ouvir, Grandão. Com todas as palavras subjetivas que você usa. –Já gargalhava a enfermeira.

Final do segundo dia e o dia da festa a fantasia. Anoitecendo, o clima era de arrumação no apartamento colorido do casal. A cena era: Letícia se maquiando no banheiro, Pedro trancado no quarto, avisando que iria se vestir.

Quem disse que ela agüentou:

-Você vai de que, Peu? – Rendeu-se Letícia perguntando com o ouvido colado a porta do quarto do casal.
- Surpresa, peixinha.- Respondeu o marido de dentro do quarto.

Lá estava Letícia, fantasiada de Alice. Peruca loira, vestidinho comportado, sapatinhos de boneca e o gato sorridente de pelúcia no braço. Sentada no sofá da sala esperando Peu terminar.

Algumas unhas bem feitas, mas já ruídas, duas taças de Dry Martini e 2 cachinhos desfeitos foi o tempo de Pedro abrir a porta do quarto.

-Peu...

Letícia não escondeu o encanto.

Pedro estava de peruca loira curtinha toda molhada e colada na cabeça, uma toalha branca enrolada do peito aos joelhos e uma faca de plástico enorme na mão, com uma geléia vermelha pendurada na ponta. Letícia viu a secretária Marion, do filme Psicose de Hitchcock na sua frente. Não agüentou com o encanto:

-Oxente, Peu. Você não poderia ter me dito isso antes de falar do meu índice de expansividade exacerbada?
-É lhe tendo com toda essa quentura que me inspiro, peixinha.
-É que eu vejo as coisas diferentes, Peu, por isso tô até vestida de Alice. Uma menina de 9 anos que entra em um espelho e vê o que tá afim. Tudo bem que eu tenho um pouquinho de Rainha de Copas também, mas ver um coelho correndo rumo ao nada, do nada, tomar chá, comer cogumelo e fumar ópio não é pra qualquer menina, né?! Mas eu me vesti assim de verdade porque era discreto.

Letícia era do tipo tempestuosa. Mas se acalmava do nada; tinha seu próprio tempo. Pedro sabia disso, ele tinha um tempo quase constante, para bom entendimento do que seria a Letícia em sua vida. Evidente que se gostavam exageradamente, imensamente. Mesmo com alguns anos de convívio, é difícil distinguir os dias de sensibilidade de uma mulher. Ficar na mesma sintonia é quase impossível.

Como aquela noite em praia do forte, em uma conversa no boteco do Jonas, entre uma pata de caranguejo e uma dúzia de lambretas que o Peu adorou experimentar:

-Eu realmente acho que é a interjeição de nossas sintonias quase paralelas que fazem essa explosão de carinho, Grandão. - Filosofou Letícia.
-O que você quis dizer com “sintonias paralelas”, dona peixinha?
-O que é hein, Pedro, não me provoca. Tô me retando muito fácil porque comer caranguejo gasta minha paciência.
-Se der um beijo ganha o meu todinho sem casca! Já disse que lhe adoro, hoje?