sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Crônicas de uma gravidez | 3

Crônica 3 | A mulher

Por Priscila Letieres

Toda mulher já pariu. 
As que abortaram, as que decidiram não ter filhos, as que optaram em viver a maternidade sem gestar, as que quiseram engravidar, as que decidiram não casar ou criaram núcleo familiar. 
Toda mulher já pariu uma escolha a ser questionada por todo mundo.
Escolha essa que nunca será comparada às escolhas nunca julgadas de um homem, cis, heterossexual e socialmente maternado.
Não importa se eles serão pais, se eles abortarão, se irão casar ou mesmo envelhecer como bem entenderem.
Não cabe a eles o lugar de observados, mas observadores, compreendidos e cuidados por toda grande mãe que já existiu.

Não é o mesmo para as mães. 
E por mães, digo mulheres. 

As decisões do feminino sempre serão julgadas. 
Qualquer que sejam elas. Do não ao sim.
Ao dar à luz de uma mulher, em sua presença social e cultural, sempre, recairá, a criticidade de todos e, acreditem, de todas. 
Escolhas que, como sementes, filhos ou realidades, acompanharão estes seres femininos por toda a vida, caminhando a sua frente, ao seu lado, atrás. 
Jamais esquecidos, perdoados ou respeitados em sua livre forma. 

Toda mulher é mãe da sua vida e da vida.
Ser mulher é gestar um monte de coisa, é parir o mundo. 

Crônicas de uma gravidez | 2

Crônica 2 | A escolha para além da escolha 

Por Priscila Letieres 

A decisão de manter ou não uma gravidez merece ser respeitada, entendida e, principalmente, acolhida. Em todas as esferas sociais que tocam a mulher. 

Eu, totalmente a favor da legalização do aborto, escolhi ter uma filha. E respeitei, assim como acredito no respeito citado acima, tudo o que chegou até mim. 

O genitor, que sugeriu o aborto algumas vezes, achou que a escolha o "empobreceria", pobre coitado, e recentemente trouxe em uma conversa que, "quando isso estiver fora da sua barriga, ai sim, terei que me envolver". E eu o respeitei. Ele que era muito menos do que "isso".
A sogra trouxe uma perspectiva idio...psicológica sobre a afirmação do filho "será que você não está culpabilizando ele demais? Ele é só um menino (de 32 anos)". E eu aceitei. 
Alguns acharam ser quase um capricho, já que para eles só assim eu seria "menos egoísta" e pararia de tomar decisões influenciadas apenas por mim - o que eles, embora também fizessem, não achavam que cabia tão bem para mim. E eu acolhi. 
A família só pensava em como receber este novo ser em seu seio, em seu ninho e viviam falando "este é o certo, vai ficar tudo bem". E eu entendi.
Externamente, levantaram-se muitos diálogos sobre o porque do "justamente eu" ser mãe, já que tantas outras pessoas queriam mais, esperavam mais, e eu era apenas eu: dentre tantas outras escolhas e atitudes divergentes de um consenso. E eu respeitei.

Muitas opiniões do meio social em que vivemos brotam ao engravidar. 

Todos viram especialistas em campos quase que acadêmicos da observação do comportamento humano e suas variáveis.
Antropólogos, sociólogos, psicólogos e até religiosos parecem eclodir ao seu lado, a cada passo pesado que a grávida dá. Eles têm sempre algo a acrescentar e, raramente, é um acolhimento sem julgamento. Em poucas situações é uma mão de amor que não acompanha um olhar de pré-julgamento.  
Eu não estava acostumada a me sentir tão tocada por tanta informação a meu respeito. 
Sempre andei muito só em minhas escolhas e mergulhos vida a dentro. 

Por um tempo, foi estranho me conectar com o bebê que eu tinha escolhido - diante de tantas outras ponderações a serem medidas, tantas linhas de reflexão a serem depuradas, tantos fatores e variáveis que foram expostos precisavam ser considerados. 

Ouvi "agora, sua profissão é mãe".

Não conseguia entender como, a partir do levante de uma circunstância que me fazia mãe, eu precisaria abrir mão de qualquer outro papel social que eu empregasse: mulher, jornalista, apreciadora de nuvens e estrelas, tomadora de banho de mar, viajante metida a cosmopolita, bebedora de vinho mesmo sem gostar.
Tudo. Que eu reconhecia como meu. Em afirmações veementes de tanta gente, tinha acabado.

Aquilo ficou como zumbido em meu ouvido e coração por tanto tempo que os enjôos pareciam ressacas, vinham sempre acompanhados de mal estar e mal humor, de uma quase tristeza. 

Eu demorei muito para deglutir em pedaços pequenos aquela frase. Para entender que o que seria de mim era uma consequência totalmente nova. Que eu, já acostumada a não ser padrão em tanta coisa, poderia construir um ser-mãe todinho meu, e unicamente meu. Sem precisar atender a demanda histórica, social e romanceada, sem precisar me encaixar no quadradinho tão apertado do que é a mãe para a grande civilização contemporânea. Podendo atender a mim e ao meu bebê em uma relação inédita neste planeta, espaço e tempo. Escolhendo ambas a nascer, eu e ela, e crescer em nós. Sempre, respeitando nossas escolhas. 

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Crônicas de uma gravidez | 1

Crônica 1 | Sobre o meu ser, só que o grávido. 

Por Priscila Letieres 

Gravidez. Algo bem mais solitário do que se vê em novelas, filmes e nas conversas de vizinhas. Algo bem mais estranho do que o usualmente romanceado, cantado, poetizado. 
Não nos preparam para esta escolha e suas consequencias - e até entendo o porque: ela é muito íntima, individual. 
Não sabemos que nos perderemos de nós por meses. 
De verdade.
A maior parte das vezes, eu não me reconheço. Sinto que não me vejo.
Não falo mas o que penso, meço as palavras para evitar esbarrar em algum dogma ou mesmo quebrar fragil verdade social - ou ainda ser incoerente com o que eu considerava ser eu. 
Não como o que quero, pondero tudo em frente à azia, desgosto do que agora me causa terrível náusea, falta prazer em me alimentar, sobra medo em comer.
Não frequente os mesmo lugares, não mergulho nas mesmas pessoas, nao visto as minhas roupas, perfumes e se quer ando com o passo que achava ser o meu. 
Muitos nãos, tão novos e subitamente despejados em minha rotina - que também não mais reconheço como sendo minha.
Em meio a esse desencontro de eus, tanto amor, delicadeza e dedicação que me deixam emotiva - para além dos hormônios em fúria. Minha mãe, com carinho tenro e presença que eu não ousaria substituir por nada mais no mundo. Meu pai com o colo, ainda que distante, amoroso para minha angústias, correndo pra longe do julgamento - do meu próprio, inclusive. Familiares suaves, amigos - e mesmo não-amigos - de olhos atentos e maos prontas para apoio. 
Muito amor. 
Ainda assim, é muito estranho ter um outro ser humano dentro do seu corpo. 
Ando só, mas acompanhada.
Fico triste no banho, mas me culpo pela pessoinha na barriga que agora escuta o meu chorinho baixo. 
Sorrio sozinha quando vejo uma árvore sob brilho dourado, e me vejo indicando isso para esta mesma pessoinha que me acompanha. 
Uma pessoa que sequer conheço, mas já me despiu em intimidade e que eu - inacreditavelmente - já amo como há séculos. 
Um ser humano que eu, unicamente, escolhi trazer a este espaço e tempo. Uma pessoa miúda que assumi de imediato como parte da minha vida - sim, a chuva de nãos, o despertar do meu eu desconhecido e o meu próprio não-reconhecimento, tudo, topado por mim. Contra a outra parte desta feitura. Contra os mil planos. Contra o ordinário e comum a minha volta. Contra um cachorrinho ou um peixe. 
Escolhi um tipo de amor diferente. 
Um que caminha fora de mim. 
Um que vai me devolver meu passo, meus nãos, meus sims, meu corpo. Só não o meu coração.