Eu, totalmente a favor da legalização do aborto, escolhi ter uma filha. E respeitei, assim como acredito no respeito citado acima, tudo o que chegou até mim.
O genitor, que sugeriu o aborto algumas vezes, achou que a escolha o "empobreceria", pobre coitado, e recentemente trouxe em uma conversa que, "quando isso estiver fora da sua barriga, ai sim, terei que me envolver". E eu o respeitei. Ele que era muito menos do que "isso".
A sogra trouxe uma perspectiva idio...psicológica sobre a afirmação do filho "será que você não está culpabilizando ele demais? Ele é só um menino (de 32 anos)". E eu aceitei.
Alguns acharam ser quase um capricho, já que para eles só assim eu seria "menos egoísta" e pararia de tomar decisões influenciadas apenas por mim - o que eles, embora também fizessem, não achavam que cabia tão bem para mim. E eu acolhi.
A família só pensava em como receber este novo ser em seu seio, em seu ninho e viviam falando "este é o certo, vai ficar tudo bem". E eu entendi.
Externamente, levantaram-se muitos diálogos sobre o porque do "justamente eu" ser mãe, já que tantas outras pessoas queriam mais, esperavam mais, e eu era apenas eu: dentre tantas outras escolhas e atitudes divergentes de um consenso. E eu respeitei.
Muitas opiniões do meio social em que vivemos brotam ao engravidar.
Todos viram especialistas em campos quase que acadêmicos da observação do comportamento humano e suas variáveis.
Antropólogos, sociólogos, psicólogos e até religiosos parecem eclodir ao seu lado, a cada passo pesado que a grávida dá. Eles têm sempre algo a acrescentar e, raramente, é um acolhimento sem julgamento. Em poucas situações é uma mão de amor que não acompanha um olhar de pré-julgamento.
Eu não estava acostumada a me sentir tão tocada por tanta informação a meu respeito.
Sempre andei muito só em minhas escolhas e mergulhos vida a dentro.
Por um tempo, foi estranho me conectar com o bebê que eu tinha escolhido - diante de tantas outras ponderações a serem medidas, tantas linhas de reflexão a serem depuradas, tantos fatores e variáveis que foram expostos precisavam ser considerados.
Ouvi "agora, sua profissão é mãe".
Não conseguia entender como, a partir do levante de uma circunstância que me fazia mãe, eu precisaria abrir mão de qualquer outro papel social que eu empregasse: mulher, jornalista, apreciadora de nuvens e estrelas, tomadora de banho de mar, viajante metida a cosmopolita, bebedora de vinho mesmo sem gostar.
Tudo. Que eu reconhecia como meu. Em afirmações veementes de tanta gente, tinha acabado.
Aquilo ficou como zumbido em meu ouvido e coração por tanto tempo que os enjôos pareciam ressacas, vinham sempre acompanhados de mal estar e mal humor, de uma quase tristeza.
Eu demorei muito para deglutir em pedaços pequenos aquela frase. Para entender que o que seria de mim era uma consequência totalmente nova. Que eu, já acostumada a não ser padrão em tanta coisa, poderia construir um ser-mãe todinho meu, e unicamente meu. Sem precisar atender a demanda histórica, social e romanceada, sem precisar me encaixar no quadradinho tão apertado do que é a mãe para a grande civilização contemporânea. Podendo atender a mim e ao meu bebê em uma relação inédita neste planeta, espaço e tempo. Escolhendo ambas a nascer, eu e ela, e crescer em nós. Sempre, respeitando nossas escolhas.