quinta-feira, 23 de junho de 2011

Fogueira de Dendê

Primeiro Momento

Negros de roupa branca
Pisando em terra preta
Ouvindo batuque do couro

Sob a luz dos orixás
Cantando a energia
Saudando a vida, a alegria

Eu me reconheço
Negra, na Bahia
Mãe de Santo, Filha da Natureza

Segundo Momento

Você consegue escutar esta casa?
Corra entre seus místicos corredores
Verá:

- O SEU LUGAR!

Reconhece os seus irmãos. Abrace-os
Sinta o dendê ir da boca para o sangue. Lave-se
Prove a mandioca amassada. Saborei

Ile Axe Oya

Sinta o cheiro:

- É FOLHA!

Plural

"Você me apresentou as mulheres.
Eu te apresentei as Baianas.

Que desleal.
Você estará eternamente em débito comigo."


Por Juca D'água

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Roma

o meu peito não doeu
a barriga não embrulhou
a cabeça não rodou
minha mão não suou

não me senti mal
não quis te agredir
não me vi frágil
não tentei lhe punir

tudo em que minha cabeça machucada conseguiu mandar, ela mandou
mas uma única lágrima escorregou do lado direito sem o meu consentimento

direito: o lado oposto ao do casamento
casamento: que um dia sonhamos, juntando todos os nossos opostos nos mínimos detalhes

Ah, esse amor que me desalinha
porque no amor, mesmo o amor indo embora e dando um sorriso amarelo de sem graça
mesmo sendo o mesmo amor de tantos gozos e arrepios atrás
no amor a gente não consegue mandar

mesmo sendo eu a jovem
não sou quem sai deste relacionamento pintando ele com o ar de romance juvenil
parece que assim o foi para quem mais amei o meu mais belo amor: só
"deixe guardado na lembrança o amor"

na minha lembrança vou deixar aquilo que não posso mais viver
vou já me adiantar
amor é para se amar

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Desentendendo

As minhas memórias afetivas do Rio de Janeiro se misturam e se confundem com memórias afetivas do hoje.
É estranho se misturar a alguém.
Você se perde de você, se acha no outro, se encontra na esquina entre você e o outro e se separa do você com o que já foi um dia.
É complexo mesmo.
Não sei mais se caminho sob um céu aberto, como em um dia fresco de verão, ou sob um céu nublado, ameaçando desaguar aquela chuva fina e angustiante.
Gostaria de entender e decifrar os códigos que postulam e dão sentido à sequência de memórias; uma lembrança ao lado da outra; o que é verdade ao lado do que é inventado; o que é seu ao lado do que é do outro.
Isso também é complicado. Mas nem tudo o é.
Não é como dizem: "essa completa aquela e vice versa".
Não existe isso de "completar".
É uma questão de lógica: Quando se compartilha uma só vida a dois, é como se as duas metades passassem a ser, para todo o sempre, incompletas.

Pura lógica