quinta-feira, 14 de maio de 2009

a do coração

seria o coração um balaio de nervos?
o carinho de bêbados?
a canção que niguém ouve do gavião?

poderia ser coração a mão que bate?
a rubra face que escorre só com um toque?
uma faca sem corte?

uma caixinha de células?
uma tampa de panela?
o desejo entre dificuldades?

coração haveria de ser terra ou água?
lençol ou cama?
uma casca de banana ou a pá de lixo?

seria o coração uma porta,
que bate quando nervosa,
que range quando se incomoda,
que fecha quando sente frio,
que abre com piedade?

liquidificador de sangue, torneira de emoções, caneta de poeta, cor de borboleta, temperatura do corpo, bomba de são joão ou estante que abriga uma coleção...

fato é que o coração é o que qualquer um quiser

ou de quem pegar primeiro

o poema do homem torto

I.
querer tudo é se perder
o mar de mil gotas de sal
arde o olho, dói no coração, parte a boca

segurando em um fio,
o homem torto não cai
ele é do tamanho da queda
ele é a queda
tem a boca cheia de dentes
pula dentro da barriga e não escorrega


II.
esquivando-se das esquinas,
corta o muro
atravessa as casas
come cabelos, peles e o vento que sai das bocas
o vento quente o alimenta por toda eternidade

vive de bocados, não tem paladar
não tem nada para dar
é sozinho, é cheio
é entupido de nada
gosta de tudo


III.
ele aceita muito pouco
movimenta-se leve
solto...

dança em qualquer lugar
com qualquer música
com qualquer coisa

ele só quer existir
se subtrai para deixar a vida,
protagonista,
subir em suas costas e sapatear

ele agita folhas, nuvens
as águas, as gargalhadas
e as caras de espanto


IV.
é louco poeta, médico do tédio
cura do mundo
de todos os mundos

o homem torto se encanta com luzes, cheiros e toques
cria palavras mas nunca usa
semea as letras como sementes em peitos abertos com bastante esmero,
é fértil
planta sonhos, colhe oferendas e ofensas

é chutado, endeusado
usa estrela como roupa
penteia os cabelos com lama
e tem os olhos de amor