terça-feira, 20 de março de 2018

Meu eu esquecido

Hoje eu fiz o seu caminho

Passei onde deságua o seu labor

Cruzei as raízes onde fincou amor por sua ancestralidade

Parei onde me vi

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

aquele verbo intransitivo direto

foda-se
fodasse
fodace
fodasce
fodaze
fodase

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

A coisa

Era só uma coisa. Uma porção de plástico desenhado sob a ótica de uma estética datada, clássico oitentista, visto em filmes e pessoas e referências. 
Era só um bem estático de consumo, timbrado sob a alcunha de uma palavra qualquer - ao que me parece, chama-se "marca" - e marcado em viva carne com arranhões incontáveis das experiências nas quais foi abruptamente envolvido, sem se quer ser consultado. 
Era uma parte das aventuras das quais fez parte, um resto de memória menor, o olhar oculto.
Ele era um organismo particular de alguém, uma coisa que trazia à lente um momento, que por sua vez o justificava - pois tinha uma emoção. 
Ele não era só um treco. Era vivo, do seu jeito natureza-morta. 
Roubaram os meus óculos.

domingo, 10 de setembro de 2017

comida má

O mergulho em águas turvas de um lago estranhamente calmo me traz você. Isso mesmo, você. Quase como um sonho ruim depois de dormir cansada, esgotada, de roupa no sofá. Acordo amassada pensando no seu canto mais delicioso, ali, onde encaixei tão bem, no seu corpo. Um corpo com o qual topei e quis sofrivelmente, embora soubesse que não passaria disso, desse placebo e que agora some de vez. Porque você o tirou de mim, o você, e me esqueceu.

O banho em água corrente e limpa me leva pelo ralo. Me vejo isso, farelos de uma pessoa que acabaram de comer caem da minha própria existência, que se desfaz no piso molhado do banheiro. Me cato e deito numa cama com lençóis claros. Me colo e me toco. O que me restou foi isso, um pedaço de desejo usado, que coloco em minhas mãos e levo até meu prazer para lhe engolir ali. E lhe comer até nada sobrar. Porque preciso lhe esquecer. 

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Um parágrafo aleatório de ficção

Ela estava pensando sobre deuses, mistérios e estranhezas - extraídos do livro, já avançado na leitura. Parou próximo ao cruzamento, poucos metros de distância da calçada seguinte. Olhou pra cima, viu o céu austral, sentiu o cheiro ancestral e lembrou que aquela era mesmo a sua cidade, como sentira muitos anos atrás, em sua alma velha. A jovem quase foi alcançada por um senhor negro de barba alva que caminhava no vácuo à sua esquerda, por muito pouco não foi atropelada por uma menina descalça e com uniforme do colégio correndo em sua direção, desviando pela direita. Quando voltou ao presente ouviu uma mulher de voz desafinada dizer "Salvador é um inferno". Pareceria cena do livro que lia no ônibus, antes de saltar naquele espaço estranho. Aquele pequeno espaço no mundo era o seu.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

título da postagem

Desde criança, meu pai me chama de "pequena flor de cactos do deserto". Podia ser rosa, orquídea, margarida. Nenhuma delas. Com tanta flor no planeta, ele escolheu justamente essa pra me referenciar, para me conectar com.

Ele não podia estar mais certo. Nem clichê, nem rara, nem simples. Sou mesmo uma flor de cacto.

E voltei a escrever.  

sábado, 24 de setembro de 2016

sobressol

O sol é um ícone em minha vida. Se eu pudesse escolher uma coloração para o filme da minha história, certamente, seria algo como lusco fusco, com raios de sol que cortam as cenas.

Invasores tão delicados e pertencentes, esses feixes que passam pelos poros dos rostos, que acendem o suor do pescoço, que derrubam em rios de cheiro pelo ar os perfumes que destilam cabelos, peles, roupas, objetos, tempo.

O sol é um crônica cheia de si e do todo. Migalhas do que foi, em cristais na poeira, e do que virá, quando refletido em orvalhos.

- Chamem os astrofísicos, rápido! Eu sei que ele é um punhado de estrelas derramadas como purpurina em meu corpo, que sofre de alegria e cócegas ao ser tocado por seus mínimos seres. Só de lembrar quero rir e me coçar. Eu sei o que é o sol.