O CASAL PERFEITO
-Eu quero ir de Hitchcock!
-Ah, não inventa, Letícia! Vamos de Romeu e Julieta e acabou.
-Mas nós não somos um casal perfeito.
-Justamente, nem eles eram, tá decidido?
-Eram SIM!
-Eles não morreram?Não tem um final triste?Então não eram perfeitos.
-Detesto ir de normal, Peu.
-Para quê todo mundo lhe olhando?
Letícia tinha casado com Pedro há 3 meses em uma cidade minúscula do interior da Bahia. Ele, cineasta, foi a trabalho carregando nas costas a noivinha enfermeira que tanto queria aproveitar as férias.
Mas a paisagem era muito bonita, fazia muito calor, a cama era muito pequena e o amor era tanto que o melhor mesmo era casar logo.
Chegando a Salvador, algumas semanas depois, já dividiam o apartamento de Pedro, o carro e a paciência entre os dois. Apesar disso, estava tudo bem.
Até que chegou o aniversário a fantasia de 1 ano do sobrinho de Letícia.
-Ah, Grandão, vamos de Ruth e Raquel, vai?
-Ô peixinha, dá para eu ir de surfista, não?! Pego até sua prancha velha e tudo mais se você quiser.
Porque do "peixinha"? Foi um dia lindo de praia quando os dois se encontraram pela primeira vez nessa vida.
CENA1: A enfermeira, já em água antes mesmo de entrar no mar, dizendo as amigas como era maravilhosa no nado crau.
CENA2: A enfermeira, em água, se afogando no mar.
CENA3: Depois do resgate de Pedro, o suspiro de alivio de Letícia e seqüente risada de Peu, a surpresa:
-Tava brincando demais no mar, hein peixinha?
-O que você quer de mim, Oh homem g r a n d e ! - Deliciou-se Letícia ao acordar de vez, agora.
E a história dos dois se fez destino.
Um chopp pro Peu, 5 águas de côco pra Letícia, 4 anos de namoro, 2 dias de noivado e recém feitos 3 meses de casamento. Eram todos os números que o casal usava durante a vida, ambos detestavam contar número.
Mas existia um numeral especial.
Dizem que o terceiro mês de casamento é delicado. Se não dizem, eu sempre ouvi alguém dizer que ouviu. A festa do pequeno Rafael, que até então não tinha muita coisa haver com a história, tinha que ser justo neste bendito mês?
Mas o menino já nasceu, fazer o que?
Continuando...
-Não entendo, se você quer tanto fazer minha vontade, Pedro, poderia fazer o favor de repensar na idéia de Chave e Fechadura?
-Sempre lhe achei espetaculosa demais, Peixinha, e sabia que um dia teria que pagar meus pecados. – Desistiu Pedro.
-Como é que é Sr. Pedro? Não entendi... Explique melhor; roteirize; coloque a legenda, vá!
Sabe quando começa uma briga? Quando alguém diz que entendeu tudo, mas repete as palavras em uma ordem completamente diferente da dita na versão original; ou quando alguém diz que não entendeu nada e segura em uma palavra:
-O que você quis dizer com “espetaculosa”, Pedro?
Isso remete a um dia do casal no parque. Letícia – mulher que adora segurar palavras – assustava os pombos ameaçando jogar uma bomba de efeito moral que iria fazê-los chorar para sempre de medo, enquanto Pedro assistia a cena do banco, comendo pipoca. Cansada de encarar os bichos alados sem obter sucesso na tentativa de afastá-los, veio fadigada sentar-se junto ao até então namorado:
-Porque tem pombo no mundo, cara? Eles não leram a placa com políticas de boa convivência que dizia: “sejam cordiais, não caguem em cabeças alheias”?
- Deixa isso pra lá, pequena, você é radical demais, deixa a natureza viver em paz.
-Como assim, Pedro? Ta dizendo que eu não gosto de natureza, é?Entendi tudo, foi por isso que você não me deixou ir para a filmagem lá na Chapada, não foi?
-Oxente, Letícia, ta viajando, é?
-Não viajei não, fiz plantão no Hospital, isso sim. Mas o que você quis dizer com “radical”, Sr. Pedro? Posso saber?
O casal costumava sair sempre. Andavam juntos para todo canto: vernissage do amigo artista plástico de Peu; comemoração do dia do médico – regada a bebidas com componentes etílicos – na casa de Renata da obstetrícia; parque aos domingos; sexta do chopp com a galera ‘das antigas’. Era fácil brigar, mais fácil ainda era fazer as pazes:
-Espetaculosa é coisa boa, peixinha, eu juro. Vem aqui dar um beijo.
-Se é boa porque tem “pagar os pecados” na mesma frase que ela?
-Um beijo, vá!- Pedro interrompeu a mulher tascando um beijo daqueles.
Mas não daquela vez. A briga estava rendendo uma conversa torta. Letícia afastou Pedro de perto do seu peito com as duas mãos. Aquilo tinha mexido com ela a ponto dela falar devagar e pausadamente com o marido.
-Pôxa, Peu. Você está dizendo que eu sou efusiva e que você paga seus pecados indo a uma festa de um sobrinho meu fantasiado? Eu nem acredito.
-Letícia, pára com isso, eu só falei por falar, não quis dizer nada não. Você sempre entende, quer entender errado agora porque, hein?
-Por isso você queria ir de Romeu, morrer logo e ter um final triste pra não ser um casal perfeito, não é?
-Tá bom, parou a brincadeira, peixinha, o Marcelo da editora sempre falou que ia fazer essa piadinha comigo um dia, mas você participar, peixinha, é demais. Isso é sacanagem. Vá, pare com isso.
Pedro já estava sorrindo quando fechou o tempo para Letícia:
-Não me ligue hoje não, Pedro. Vou estar na casa da minha mãe pensando na “brincadeirinha de sacanagem” que é a nossa relação.
Benditas sejam as casas de mães, nem tão benditos são os conselhos que se ouve das irmãs, tias, babás dos sobrinhos, cozinheiras e amigas das amigas que lhe dão total apoio – e também aconselham de maneira duvidosa – na casa de sua mãe.
A situação estava feia. Pedro ficou tão chocado com a reação esdrúxula de Letícia que entristeceu, ficou murcho e pensativo.
Letícia queria uma análise completa de sua relação, queria estatísticas, conceitos bem exemplificados, tudo autenticado em cartório – mesmo não gostando de nada disso.
Ela queria ir fantasiada de enfermeira sexy só de pirraça; sabia que Pedro detestava piadinhas sobre enfermeira sexy.
- Espetaculosa é demais pra minha cabeça, cara. Como ele pôde?
-E que drama infundado, que absurdo. Colocar em cheque a relação por uma palavra efêmera. – Dizia Pedro, tomando uma cerveja com o amigo Marcão, que também não era bom com conselhos – Como ela pôde?
Briga boba é traiçoeira. Se mal resolvida, pode virar o fim do mundo, do relacionamento, da vida a dois; se esquecida fácil demais, algum dia, em alguma outra situação, outro século, vai ser lembrada.
Na manhã seguinte, Letícia já se arrumava pra sair quando Pedro chegou junto:
- Quer pensar ainda?
-Quero.
Passar dois dias sem se falar foi um tremendo esforço. Gigante esforço, porque se falar era o que mais queriam. Foi difícil segurar a piadinha matinal que Letícia sempre fazia do cabelo bagunçado e da cara de caneca de Pedro. Pedro não conseguiu dormir rápido sem fazer o cafuné na cabeça da mulher, que ninava mais ele do que ela.
Por falar em palavras, as conversas eram o forte do casal. Ambos dominavam a arte da palavra e em época de namoro já tinham admitido um ao outro:
-Acho que é por isso que virei cineasta, peixinha. Sempre gostei de contar as coisas. Contar tudo sem número, apenas narrar, saborear as histórias. –Disse à namorada enquanto caminhavam até a praia da Barra no sábado livre da enfermeira.
-Eu adoro lhe ouvir, Grandão. Com todas as palavras subjetivas que você usa. –Já gargalhava a enfermeira.
Final do segundo dia e o dia da festa a fantasia. Anoitecendo, o clima era de arrumação no apartamento colorido do casal. A cena era: Letícia se maquiando no banheiro, Pedro trancado no quarto, avisando que iria se vestir.
Quem disse que ela agüentou:
-Você vai de que, Peu? – Rendeu-se Letícia perguntando com o ouvido colado a porta do quarto do casal.
- Surpresa, peixinha.- Respondeu o marido de dentro do quarto.
Lá estava Letícia, fantasiada de Alice. Peruca loira, vestidinho comportado, sapatinhos de boneca e o gato sorridente de pelúcia no braço. Sentada no sofá da sala esperando Peu terminar.
Algumas unhas bem feitas, mas já ruídas, duas taças de Dry Martini e 2 cachinhos desfeitos foi o tempo de Pedro abrir a porta do quarto.
-Peu...
Letícia não escondeu o encanto.
Pedro estava de peruca loira curtinha toda molhada e colada na cabeça, uma toalha branca enrolada do peito aos joelhos e uma faca de plástico enorme na mão, com uma geléia vermelha pendurada na ponta. Letícia viu a secretária Marion, do filme Psicose de Hitchcock na sua frente. Não agüentou com o encanto:
-Oxente, Peu. Você não poderia ter me dito isso antes de falar do meu índice de expansividade exacerbada?
-É lhe tendo com toda essa quentura que me inspiro, peixinha.
-É que eu vejo as coisas diferentes, Peu, por isso tô até vestida de Alice. Uma menina de 9 anos que entra em um espelho e vê o que tá afim. Tudo bem que eu tenho um pouquinho de Rainha de Copas também, mas ver um coelho correndo rumo ao nada, do nada, tomar chá, comer cogumelo e fumar ópio não é pra qualquer menina, né?! Mas eu me vesti assim de verdade porque era discreto.
Letícia era do tipo tempestuosa. Mas se acalmava do nada; tinha seu próprio tempo. Pedro sabia disso, ele tinha um tempo quase constante, para bom entendimento do que seria a Letícia em sua vida. Evidente que se gostavam exageradamente, imensamente. Mesmo com alguns anos de convívio, é difícil distinguir os dias de sensibilidade de uma mulher. Ficar na mesma sintonia é quase impossível.
Como aquela noite em praia do forte, em uma conversa no boteco do Jonas, entre uma pata de caranguejo e uma dúzia de lambretas que o Peu adorou experimentar:
-Eu realmente acho que é a interjeição de nossas sintonias quase paralelas que fazem essa explosão de carinho, Grandão. - Filosofou Letícia.
-O que você quis dizer com “sintonias paralelas”, dona peixinha?
-O que é hein, Pedro, não me provoca. Tô me retando muito fácil porque comer caranguejo gasta minha paciência.
-Se der um beijo ganha o meu todinho sem casca! Já disse que lhe adoro, hoje?
8 comentários:
Amei o texto, senti muita verdade nele.
tadinho do peu...rs
Muito bom esse texto Dona Priscila. Maturidade nos desfechos dos diálogos. Síntese de pensamentos. Enfim nota 10!
Nossa...
Eu quero um namoro desses.
Lindo Piu. Faz um livro. Juro que leio todo, de ponta a cabeça, até o fim, deliciando-me!
Piu
que coisa MARAVILHOSA.
Escreve um livro!!!!!!!!!!
eu amei a história!!!!! :DDD
fiquei muito encantada!! muito mesmo!
beeijo! :*
eu amei a história!!!!! :DDD
fiquei muito encantada!! muito mesmo!
beeijo! :*
que texto LINDOO, exala sinceridade nelee. ;)
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