sábado, 18 de setembro de 2010

A morte do gato

Estava no telefone com uma amiga quando ouvi um barulho de arrepiar – sabia que não era algo bom.

Aos 9 anos, sofri a minha primeira e única perda de um ente próximo.

Assiti a minha mãe se desfazer com a morte do seu gatinho de cristal.

Ele era o xodó da casa. Um gato de estimação. Um membro da família.

Mal tratado pelas empregadas domésticas que na minha casa entravam, ele sempre esteve com a saúde e os cuidados em risco – pelo menos aos olhos protetores de minha mãe.
Ele era o filho pródigo – mas eu até gostava dele.
Me lembro claramente do fatídico dia. Uma manhã de faxina, aquele tipo de faxina que eu aproveitava para patinar pela casa ensaboada.

- Pra ser faxina tem que jogar água e sabão – Dizia minha mãe.
- Adianta dizer que isso detona os alisares das portas? – Retrucava meu pai.
- Não – Encerrava o assunto.

No meio daquele caos na casa, naquela sexta-feira, o inesperado fez-se fato e marcou a vida de todos que nos rodeavam.

Depois do estalo, consegui cuspir poucas palavras, de maneira embolada, pela boca.

-Amiga, te ligo depois. A Sueli quebrou o gato.
-Ai meu Deus! Tem certeza que foi o gato?! Não foi o cisne, não? Priscila, me liga qualquer coisa que precisar, tá?

Sabão, espuma, água e caquinhos de cristal se misturaram no chão, embaixo da mesinha de centro.

Sueli estava assustada.
Ela tinha matado o gato.

- E agora, Sueli? Quem vai contar para minha mãe?
- Melhor esperar ela chegar, né?!
-É.

À noite, o clima era de velório.
Eu, Sueli e agora meu pai. Os três parados na sala esperando a minha mãe chegar.

- Liris, a queda foi rápida, não tive tempo de agarrar ele – Explicou-se Sueli.
- Em questão de segundos eu já não conseguia delinear o que era cara e o que era rabo - Piorei, tentando explicar a não tentativa de colar os restos.
- Era só um gato de cristal.

Lógico que a fala de meu pai foi a determinante para o fim da conversa. Gritos, descontrole e muita dor tomaram a sala. Minha mãe estava sofrida – e puta da vida!

Aquele diálogo seco marcava o fim de uma era. A era dos bibelôs e mimos de mesa da minha mãe. Tudo havia se acabado.

Minha mãe ficou sem falar por alguns dias e se lamenta até hoje quando alguém fala de gatos ou cristal.

Sueli adquiriu um Karma, coitada. Eu não queria ter sido o canal deste desastre.
Eu, por sinal, passei a acreditar em Karma.

E meu pai, ele continua achando que a água detona os alisares da porta – e continua não adiantando nada ele ter essa opinião.

Desde aquele dia, a mesinha sempre esta vazia. Como que em uma representação do luto eterno da sua dona. Agora, só um vaso de alumínio, algumas esculturas de madeira de Gana e uma bola de vidro ilustram a mesa do centro.

Nada de vida.

Um comentário:

LIRIS LETIERES disse...

Só lendo esse texto, depois de tantos anos da perda de meu estimadinho felino de cristal, ri às gargalhadas do fato fatídico.
Mas Suely, essa, nunca vai esquecer esse dia! rsrs
Muito bom, Piu!
Mamãe miauuuuuuuuuuu