Crônica 1 | Sobre o meu ser, só que o grávido.
Por Priscila Letieres
Gravidez. Algo bem mais solitário do que se vê em novelas, filmes e nas conversas de vizinhas. Algo bem mais estranho do que o usualmente romanceado, cantado, poetizado.
Não nos preparam para esta escolha e suas consequencias - e até entendo o porque: ela é muito íntima, individual.
Não sabemos que nos perderemos de nós por meses.
De verdade.
A maior parte das vezes, eu não me reconheço. Sinto que não me vejo.
Não falo mas o que penso, meço as palavras para evitar esbarrar em algum dogma ou mesmo quebrar fragil verdade social - ou ainda ser incoerente com o que eu considerava ser eu.
Não como o que quero, pondero tudo em frente à azia, desgosto do que agora me causa terrível náusea, falta prazer em me alimentar, sobra medo em comer.
Não frequente os mesmo lugares, não mergulho nas mesmas pessoas, nao visto as minhas roupas, perfumes e se quer ando com o passo que achava ser o meu.
Muitos nãos, tão novos e subitamente despejados em minha rotina - que também não mais reconheço como sendo minha.
Em meio a esse desencontro de eus, tanto amor, delicadeza e dedicação que me deixam emotiva - para além dos hormônios em fúria. Minha mãe, com carinho tenro e presença que eu não ousaria substituir por nada mais no mundo. Meu pai com o colo, ainda que distante, amoroso para minha angústias, correndo pra longe do julgamento - do meu próprio, inclusive. Familiares suaves, amigos - e mesmo não-amigos - de olhos atentos e maos prontas para apoio.
Muito amor.
Ainda assim, é muito estranho ter um outro ser humano dentro do seu corpo.
Ando só, mas acompanhada.
Fico triste no banho, mas me culpo pela pessoinha na barriga que agora escuta o meu chorinho baixo.
Sorrio sozinha quando vejo uma árvore sob brilho dourado, e me vejo indicando isso para esta mesma pessoinha que me acompanha.
Uma pessoa que sequer conheço, mas já me despiu em intimidade e que eu - inacreditavelmente - já amo como há séculos.
Um ser humano que eu, unicamente, escolhi trazer a este espaço e tempo. Uma pessoa miúda que assumi de imediato como parte da minha vida - sim, a chuva de nãos, o despertar do meu eu desconhecido e o meu próprio não-reconhecimento, tudo, topado por mim. Contra a outra parte desta feitura. Contra os mil planos. Contra o ordinário e comum a minha volta. Contra um cachorrinho ou um peixe.
Escolhi um tipo de amor diferente.
Um que caminha fora de mim.
Um que vai me devolver meu passo, meus nãos, meus sims, meu corpo. Só não o meu coração.
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